PORRA- faça jorrar por meio de palavras pesias sentimentos idéias ...


30/08/2006


Se meu mundo cair, então
Caia devagar
Não que eu queira assistir
Sem saber evitar
Cai por cima de mim
Quem vai se machucar
Ou surfar sobre a dor até o fim

Cola em mim até ouvir
Coração no coração
O umbigo tem frio
E arrepio de sentir
O que fica pra trás
Até perder o chão
Ter o mundo na mão
Sem ter mais onde se segurar
Se meu mundo cair
Eu que aprenda a levitar

(JOSÉ MIGUEL WISNIK)

Escrito por Jan às 20h10
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26/08/2006


Remember the tinman

There are locks on the doors
And chains stretched across all the entries to the inside
There's a gate and a fence
And bars to protect from only god knows what lurks outside
Who stole your heart left you with a space
That no one and nothing can fill
Who stole your heart who took it away
Knowing that without it you can't live
Who took away the part so essential to the whole
Left you a hollow body
Skin and bone
What robber what thief who stole your heart and the key

Who stole your heart
The smile from your face
The innocence the light from your eyes
Who stole your heart or did you give it away
And if so then when and why
Who took away the part so essential to the whole
Left you a hollow body
Skin and bone
What robber what thief
Who stole your heart and the key

Now all sentiment is gone
Now you have no trust in no one

Who stole your heart
Did you know but forget the method and moment in time
Was it a trickster using mirrors and sleight of hand
A strong elixir or a potion that you drank
Who hurt your heart
Bruised it in a place
That no one and nothing can heal

You've gone to wizards, princes and magic men
You've gone to witches, the good the bad the indifferent
But still all sentiment is gone
But still you have no trust in no one

If you can tear down the walls
Throw your armor away remove all roadblocks barricades
If you can forget there are bandits and dragons to slay
And don't forget that you defend an empty space
And remember the tinman
Found he had what he thought he lacked
Remember the tinman
Go find your hear and take it back

Who stole your heart
Maybe no one can say
One day you will find it i pray

(Tracy Champan)

Escrito por Jan às 13h31
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25/08/2006


Ah, meu amor, estamos condenados
Nós já podemos dizer que somos um
E somos um

E nessa fase do amor em que se é um
É que perdemos a metade cada um

Ah, meu amor, estamos mais safados
Hoje tiramos mais proveito do prazer

E somos um
Quando dormimos juntos, sonhos separados
Que nós não vamos confessar de modo algum

Ah, meu amor, ah, meu amor
Quantas pequenas traições
Pobres mentiras diplomáticas de puras intenções
Estamos condenados

Ah, meu amor, de discretos pecados
Formamos esse ser tão uno divisível

Parece incrível
Que nós tentemos que ele dure eternamente
Nessas metades incompletas
mas decentes

Condenados-Fátima Guedes

Foto de Fernando Preto

Escrito por Jan às 19h38
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21/07/2006


Naquele dia senti
Que, finalmente,
Tua máscara ia cair
Definitivamente
Eu estava cansado
De te ouvir mentir

Meu corpo doía de um lado
Minha alma fervia do outro
De novo no mesmo lugar
E eu não queria estar ali

Tenho certeza que tu és o castelo
Onde o meu desejo mora
Mas me machuquei
Quando me aproximei
De tuas paredes de pedra

E tudo que sonhei
Me incomoda agora
Seja qual for o dia
Seja qual for a hora
Antes de pensar em me procurar
Me apague da tua memória

Porque já tranquei as portas
E escondi as chaves
Só não vi de que lado fiquei
De dentro, ou por fora, nem sei

Você me dói agudo e isso é grave,
Grave
Antes de te reencontrar
Sei que preciso voltar
A ser alguém

Alguém que saiba, pelo menos
Tudo aquilo que não quer
Alguém que tente
Atravessar o túnel no final da luz

Pois fiquei cego, surdo e mudo
E agora quero me esquecer de tudo
Pra descobrir em fim o que sobrou de mim
Que ainda me seduz

Se por acaso pensas que
Eu vou me perder por aí
Ainda vou gritar no teu ouvido
Que
a vida é um parafuso sem fim

Que a cada volta
Aperta mais
E nunca afrouxa
Para trás
Só então saberás que
Desde o início eu já era assim

Você me dói agudo e isso é grave, grave

(Moska - a outra volta do parafuso)

Escrito por Jan às 16h57
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26/06/2006


Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos atos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Escrito por Jan às 20h14
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20/06/2006


 

Genialidades de Mário Quintana...

As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

 

Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.

 

O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

 

O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.

 

O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

 

Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

 

Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

 

Biografia  
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.

Escrito por Jan às 14h23
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17/06/2006


O meu amigo mais íntimo é o sujeito

que vejo todas as manhãs, no espelho

do quarto de banho, à hora onírica

em que passo pelo rosto o aparelho

de barbear. Estabelecemos diálogos

mudos, numa linguagem misteriosa

feita de imagens, ecos de vozes,

alheias ou nossas, antigas ou

recentes, relâmpagos súbitos que

iluminam faces e fatos remotos ou

próximos, nos corredores do passado

- e, às vezes, inexplicavelmente,

do futuro - enfim, uma conversa que,

quando analisamos os sonhos da noite,

parece processar-se fora do

tempo e espaço. Surpreendo-me

quase sempre em perfeito acordo com

o que o Outro diz e pensa.

Sinto, no entanto, um pálido

e acanhado desconforto por saber

que existe no mundo alguém que

conhece tão bem os meus segredos

e fraquezas, uns olhos assim tão

familiarizados com minha nudez

de corpo e espírito.

(Érico Veríssimo-desenho de MC Escher)

Escrito por Jan às 13h04
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15/06/2006


CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "Vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "Vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

(José Régio)

Escrito por Jan às 16h52
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14/06/2006


Nem um anjo

 

Nesses dias em que parece

se mostrar a tal verdade

a um só tempo tudo arde,

queima, fere e nada aquece.

 

Nas horas em que a encontro,

a verdade a mim se mostra urgente.

aliam-se memória e presente

a perguntar se afinal estou pronto.

 

A quem, senão a mim, tudo isso importa?

minha sorte interessa a quem?

alguém tem a chave? sabe ao menos da porta?

 

Sei que dentro, onde não chega ninguém,

perto da dor que paralisa e corta

não chega nada, nem anjo vem.

(JPC)

 

Escrito por Jan às 21h09
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Este blog é para quem sente necessidade de fazer jorrar por meio de palavras.

Sejam bem-vindos

.

(ilustração de Fábia Bercsek) 

Escrito por jansem-campos às 15h39
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