
O meu amigo mais íntimo é o sujeito
que vejo todas as manhãs, no espelho
do quarto de banho, à hora onírica
em que passo pelo rosto o aparelho
de barbear. Estabelecemos diálogos
mudos, numa linguagem misteriosa
feita de imagens, ecos de vozes,
alheias ou nossas, antigas ou
recentes, relâmpagos súbitos que
iluminam faces e fatos remotos ou
próximos, nos corredores do passado
- e, às vezes, inexplicavelmente,
do futuro - enfim, uma conversa que,
quando analisamos os sonhos da noite,
parece processar-se fora do
tempo e espaço. Surpreendo-me
quase sempre em perfeito acordo com
o que o Outro diz e pensa.
Sinto, no entanto, um pálido
e acanhado desconforto por saber
que existe no mundo alguém que
conhece tão bem os meus segredos
e fraquezas, uns olhos assim tão
familiarizados com minha nudez
de corpo e espírito.
(Érico Veríssimo-desenho de MC Escher)